“Não vi e não gostei”. Foi mais ou menos o que falou Marc Maurer, presidente da Federação Nacional de Cegos dos EUA. Ele faz questão de não ver Ensaio Sobre a Cegueira, filme do Fernando Meirelles. Vai abrir mão de conferir a Julianne Moore porque acha que o longa denigre a imagem dos portadores de deficiência visual. “Os cegos aparecem no filme como incompetentes, sujos, viciados e depravados. São incapazes de fazer as coisas mais simples, como se vestir, se lavar e encontrar o banheiro. A verdade é que as pessoas cegas normalmente fazem as mesmas coisas que as que podem ver”, disse Marc Maurer. Os produtores da Miramax evitam manifestações públicas, mas um deles foi flagrado desabafando: “essa gente não se enxerga mesmo”.
Festival de cinema é aquela coisa: um monte de filme passando e você sem tempo&dinheiro pro negócio. Mas, ha!, eu tenho um crachá malandro que me permite escorregar para dentro das sessões, desde que sobre uma poltroninha na sala. O problema é que o crachá é mais malandro que eu e, pra piorar, estava chovendo ontem à noite. Eram 21h10 e às 21h15 começava um filme com título de música do Ronaldo Bôscoli (ou do Hyldon): O céu, a terra e a chuva. De novo: o céu, a terra e a chuva. Isso não é um título, é quase um alerta, não é? O problema é que eu gosto de viver perigosamente e me enfurnei na sessão. O filme era chileno. Havia um casal gordinho ao lado, que começou a se agarrar com cinco minutos de projeção. Com cinco minutos de projeção, a câmera havia focalizado uma menina, um cachorro e uma árvore. Sentiu o drama? Com meia hora de filme começou a debandada. Até então, os espectadores tínhamos visto a protagonista, uma moça triste de cabelos negros, andar por uma estradinha, dar injeção na mãe (ou avó) inválida, errar o troco numa venda, andar pela estradinha de bicicleta, ralar o joelho, pegar uma barca (ela morava numa ilha), andar pela estradinha, olhar o mato, murmurar algumas frases, olhar pela janela, andar pela estradinha. Na quinta vez que ela passou pela estradinha um sujeito levantou e saiu correndo. De cinco em cinco minutos - ou seja, cada vez que ela aparecia subindo ou descendo a estradinha - mais alguém pegava o caminho de casa. Quando a dona da venda a acusa de roubo - ou de errar o troco fazer uma tremenda bobagem ao dar o troco - ela se emprega como doméstica na casa de um sujeito barbudo e solitário chamado… Toro. Com um nome e um roteiro desses, você logo imagina: beleza, lá vem sacanagem! Nada disso. Ela só passa a pegar outra estradinha pro trabalho. Tem uma menina no filme chamada Marta. Cara de meninão, parrudinha, deprimida. O tédio em pessoa. Numa cena, ela fica um minuto de relógio encarando uma árvore; então desaba na relva. Se ainda fosse a Scarlett Johansson… Desespero na audiência. “Ah, fala sério!”, protesta um espectador. E então começaram os risos. A cada vez que Ana (após uma hora de projeção você descobre que é este o nome da protagonista) subia a estradinha, risadinhas e burburinho percorriam a sala. Os pedidos de silêncio, veementes e cheios de si no início da sessão, perderam completamente a moral. Já tinha gente se despedindo de quem partia: uma moça ganhou um “Bye, bye” ao passar na frente da tela. Nessa hora, Toro estava com a cara toda arrebentada, na cama, tentando desesperadamente agarrar a Ana. Ela correu pra chuva (chove muito no filme) e lá ficou. Na cena seguinte, os dois jantavam tranqüilamente enquanto ela esperava a chuva passar.
É então que, pela única vez na vida, ou pelo menos no filme, Ana decide sair da rotina. Dorme na casa do Toro - mas na cama do cachorro. Ao voltar para casa, obviamente, encontra a mãe (avó?)morta. Ah! E a Marta entra no mato e ninguém nunca mais a vê. “Ela também não agüentou e foi embora”, supôs um espectador mais atento. Ana chora, anda pela estradinha, some do quadro e a câmera - lenta, muito lenta - continua ali, filmando a estrada, filmando, filmando…
Quando ‘O Céu, A Terra e A Chuva’ terminou, os aplausos foram sinceros. E muita gente aplaudiu justamente porque tinha terminado. Mas tá pensando o quê? O filme é premiado, valeu? Ganhou até troféu no festival de Rotterdam. E Rotterdam fica onde? Na Holanda!, onde é normal passar o tempo olhando pro nada.
Clicando no vídeo aí debaixo você vai entender porque o tempo é relativo.
Quarta-feira, 15h12. Toca o telefone na redação. A repórter atende. O cara começa a falar:
“Eu sou empresário de… hmmm… de uma… uma, bem… uma garota, e ela, bom, ela era a Mulher Maçã. Só que aí a gente teve um probleminha judicial (n.do e.: já existe uma Mulher Maçã) e ela teve que virar
uva. Agora é a Mulher Uva.”
Gabeira enrola corrida à Prefeitura e deixa tudo apertado para 5 de outbro.
Não deixa de ser irônico que justo quando nosso evangélico predileto aparece com força, o outrora renegado guerrilheiro seja visto como alguém ponderado e viável para uma boa gestão da cidade de São Sebastião, né mesmo, gente fina?
Gabeira seqüestrou embaixador norte-americano, usou sunga de crochê, fumou, tragou e ainda é pai de uma surfista gatinha. Por isso Raios Triplos! recomenda o voto nele.
A festa de 30 anos da grife Diesel vai acontecer em 17 cidades ao mesmo tempo. São Paulo está entre elas. Apesar disso, se a festa for metade do que sugere o sugestivo vídeo de divulgação da bagaça, ninguém é de ninguém e vale tudo, menos dedo no olho. É pura meta (opa) pornografia.
Se essa moda pega eu quero ver como fica. Pois vejam que a sobrinha da Gretchen, me disseram os jornais há algum tempo, é virgem. Ginelocogicamente falando, que fique claro. Ela deu pra artista, mas se manteve casta. Aí, eis que ela cede ao assédio de uma produtora de cinema pra fazer um filme de sacanagem.
“Putaria sim, mas com dignidade e respeito”, deve ter pensado Carol Miranda. E fez constar em contrato que vai fazer o filme, mas vai continuar com o selo lá. A fita chamar-se-á Fiz Pornô E Continuo Virgem. Isso quer dizer isso mesmo. Negócio de tocar o lado b. Como diz um amigo meu que é muito inteligente e curte estudar filosofia: sen-sa-cio-nal.
Há quem defenda que Carol deve se tornar um exemplo. Tanto de preservação da pureza quanto de disposição para, digamos, prática da somodia e das diversas possibilidades do amor carnal. Para os homens, um ideal de mulher. Para as mulheres, uma piranha sem vergonha. Não importa. Carol faz o que quer e ainda assina contrato para isso.
O que me preocupa é se isso virar moda. Mentira, isso não me preocupa, porque eu quero mesmo é que o mar pegue fogo pra pescar a sardinha frita. Mas os produtores deviam prestar mais atenção em chances de mercado por aí. Como esta aqui. Imagina isso?
- Como vereador da cidade do Rio de Janeiro, me senti indignado com a declaração do candidato à prefeitura Fernando Gabeira sobre a Câmara Municipal, na qual ele generalizou ao chamar todos os parlamentares de desclassificados. Como pode este cidadão, que sempre fez apologia ao uso da maconha e mais ainda, propôs a liberação da mesma, fazer este tipo de crítica. Se existe alguém que é desclassificado e não tem moral política e pessoal é o Sr. Gabeira que, provavelmente, deve ser um usuário inveterado desta erva.
Muito que bem. Agora só falta comentar a história da corrupção e o lance dos matadores.
E não se esqueça: uns corrompem, uns matam, mas quem financia esta merda é você, usuário inveterado.
Eu sou pela moral!
A ilustração ‘DarthCheney’ foi cortada e colada daqui.
Fui ver a fila da Madonna. Felizmente, só precisei ficar lá apenas uma hora, ao contrário do povo que estava ali desde terça-feira para garantir um lugar ao sol na “pista vip”, esta invenção que inflaciona os preços dos ingressos e acaba com uma velha instituição em shows: a turma do gargarejo.
Até pouco tempo, quem quisesse ver as pelancas da Madonna só precisaria chegar cedo no dia do show, esperar os portões abrirem, arrasar na corrida e se grudar por seis horas na grade que separa o palco do público. Agora, é preciso chegar cedo, bem cedo, dias mais cedo, meses mais cedo, para conquistar o direito de pagar R$ 600 e ficar perto do ídolo. E depois repetir a dose no dia do show.
Mas como eu não vou ao show mesmo, quero que essa gente se foda.
Eu fui até lá para escrever alguma coisa sobre a tal da fila. De cara, vi que a primeirona estava de mau humor. Eu também ficaria, se estivesse há quatro dias sem banho ou travesseiro. A situação da moça não era das melhores, mas ela perseverou. Um exemplo para toda a sociedade brasileira que tem R$ 600 no bolso e tempo de sobra para gastar numa fila ao relento.
Hoje, eu soube, a primeirona continuava firme lá, e conquistou sua tão sonhada “pista vip”, este contrasenso pós-moderno. Mas continuava de cara amarrada. Um repórter de uma TV tentou entrevistá-la, mas ela não quis saber de papo. Ele, então, apelou. “Pô, tu tá mais estrelinha que a Madonna!” Houve a falta, senhoras e senhores, houve a falta.
Vem cá, vivemos ou não num mundo capitalista onde tudo se rege pelo mercado? Sim, não é mesmo? Pois se for não, avisem que eu volto pra China, onde eles são comunistas e consumistas, um exemplo lindo do que o ser humano é capaz. A indignação tem motivo. Na Alemanha, prenderam um maluco porque, vejam só, ele alugava a mulher pro vizinho em troca de engradado de cerveja!
Ora vejam, isso lá é motivo para prender alguém? Se ele alugasse a mulher de outrem em troca do que quer que seja, vá lá. Apropriação indébita é realmente passível de detenção, coisa e tal. Mas a mulher era dele. Dele!!! Porra, se era dele, ele tem o direito de fazer o que julgar ser o melhor uso dela, não é verdade? Todo mundo sabe que a cerveja alemã é boa, mas é cara. Então o louro deve ter pensado: “Que eu terr em casa que poderr interressar a meu vizinha? Ya! Meu mulherrr!!”. Pegou a patroa, tocou a campainha da casa ao lado, negociou o preço e pronto. Ninguém tem nada a ver com isso, né não? Tô indignado mesmo, acho isso o fim da picada. O bonito agora é isso, todo mundo se metendo na vida dos outros. Pior: se metendo sem dar um engradado de cerveja em troca. O Ebay, essa empresa muito ilibada, reclamou de uma americana de 22 anos que, pra angariar fundos para seus estudos, decidiu leiloar sua pureza. E daí?! Mas a pureza não é dela? Se ela quer trocar a virgindade pelos fundos, que mal há nisso? Disse Natalie Dylan (o nome que ela usa) com muita propriedade. “Vivemos numa sociedade capitalista. Por que eu não posso ganhar com a minha virgindade?”
Arrasou, Natalie! Falou pouco, mas falou bonito.
Se o ebay não quis, azar. Um bordel de Nevada topou fazer o leilão. Tomara que ela entre para uma boa universidade e abrace uma carreira de sucesso. Até porque, universidade não é o tipo de lugar onde se entre virgem, né verdade?
Bom, a Natalie renovou minha fé nessa beleza da Humanidade, o capitalismo. Quem tem, oferece; quem quer, propõe. E vamo que vamo. Cada um no seu quadrado. Ou no seu redondo, em casos como esse.
Demócrito de Abdera, filósofo grego e velho misógino, já dizia, no século IV a.C.: “Não se exercite a mulher na palavra, pois isto é coisa perigosa”.
É dele o aforisma “Ser governado por uma mulher é, para o homem, a suprema violência”. Sarah Palin assina embaixo da assertiva do Abdera, que é ainda o autor da seguinte constatação esquisitona: “O cilindro é um rolo.”
Poderíamos captar recursos públicos pra fazer filmes ruins e festivais com as bandas de sempre. Mas preferimos um blog. Uma espécie de Emerson, Lake & Palmer do jornalismo regressivo. Raios Triplos! – um é pouco, dois é bom, mas três é de lascar. Mais...