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Quando o carteiro chegou

Dia desses, o carteiro se espantou quando passou pela repartição. Viu algo ao qual não estava acostumado. Ao lado das contas que costuma trazer com desagradável frequência – água, luz, gás, papagaio de agiota – havia uma carta simples, daquelas que as pessoas postam numa agência do ECT.

Intrigados, abrimos a missiva. Lá dizia:

“Boca do Mato, 19 de julho de 2010

Todos os dias, uma de minhas primeiras ações é ligar o laptop. Pipocam quase ao mesmo tempo: MSN, gmail,facebook, e… Raios Triplos. Estive pensando, isso deve me dar algum tipo de poder… nem que seja o de reclamar. Logo eu, que jamais acompanhei nenhum blog, tendo até severa desconfiança destes que se investem da duvidosa alcunha de “blogueiros”. Logo eu, que me orgulho de não ter rotina, surpreendi-me nesta, tão singela: msn, gmail, facebook, Raios Triplos.

Isto, definitivamente me dá algum tipo de poder.

É extremamente frustrante finalmente dispor-se a ouvir o que alguém tem a dizer. Escolher os senhores como interlocutores – vejam bem, eu nunca pedi, a premissa de seu blog é que promete (ou ameaça) que iam dizer assim mesmo! Ora raios, por que é então que não dizem?

Senhores, um pouco de respeito com o consumidor!

Claro está que eu já não posso viver assim! Nessa ânsia por posts não postados, opiniões não emitidas… nada com o que discordar.

Para não falar no dano moral que me impingem os senhores: fiz alarde de suas abobrinhas! Contei pra todo mundo que tinha uns caras, falando uns lances… e já não foram poucos os que me confrontaram, meigamente:

Ué, e os cara?

Pois é, gente boa: Cadê os cara?

Um pouco de disciplina, por favor.

Meu sábio xamã, De Cócoras Com Peitos, pacifista, adepto do nudismo e das máquinas caça-níqueis, me ensinou, entre um e outro gole de ayahuasca: zifia, nunca saque uma arma se não pretende atirar! De Cócoras com Peitos perdeu todo o respeito pelos senhores, amigos, que prometeram dizer, e calaram.

Mas que fique aqui meu manifesto, meu protesto.

Além de ser privada de parte já importante de minha rotina inexistente, ainda fiquei mal na fita.

Isso é que dá, cê querer freqüentar…

Flávia Gomes – Uma Leitora indignada”

Com os olhos marejados, queremos aproveitar para responder.

Cara Flávia,

Obrigado pelas palavras de carinho. Perceba, a vida moderna impõe a nós, jovens adultos, uma série de compromissos a serem cumpridos. Vez por outra temos que sacrificar algo. E para manter nossa estafante rotina de orgias, bebedeiras, jogatina e peladas, tivemos que sacrificar o trabalho.

Mas há uma ressalva a ser feita. Você mora num lugar chamado Boca do Mato. Cá pra nós, quem mora num lugar chamado Boca do Mato – seja lá onde isso for – não pode se queixar de muita coisa, né?

Porque morar num lugar chamado Boca do Mato por si só deve ser terrível. Então, o hiato de Raios Triplos! há de ser o menor dos seus problemas.

Mas não esmoreça, Flávia. De qualquer forma, agradecemos o carinho. E mandamos, comovidos, um beijo no seu coração.

Eliza em fatias

“Para o [filósofo] Jean Baudrillard, o pornô (como as ciências médicas) fragmenta o corpo para expor os seus pormenores.” A citação da antropóloga María Elvira Días-Benitez no recém-lançado livro Nas Redes do Sexo – Os Bastidores do Pornô Brasileiro me deu arrepios. Sou um desses que se deixaram obcecar pelo chamado “Caso Bruno” – uma conjunção de personagens e episódios moralmente lamentáveis, encerrada de forma trágica. E macabra. Por uma curiosidade obviamente mórbida, fui conferir na internet os filmes pornô de Eliza Samudio – as imagens em movimento que vão perpetuar sua existência, depois de assassinada e retalhada. E ficou a terrível sensação de que a moça já tinha sido moída em vida.

Corajosa e detalhada investigação sobre a indústria brasileira do cinema de sexo, o livro oferece coordenadas para quem tentar a imaginar a trajetória da aspirante a modelo curitibana pelo mundo do pornô, com direito a ridículos nomes artísticos e tudo mais. María Elvira fala dos baixos cachês e das inúmeras exigências para entrar nesse mercado subterrâneo e maldito, em que as estrelas mulheres são poucas e a sua vida útil, curta demais.

A se julgar pelo que vi e li, Eliza foi a típica atriz dos pornôs hétero mainstream. Aquele que descarta gays, travestis e as bizarrices (sexo com anões e animais, escatologia), mas não abre mão de alguns tapinhas e da sodomia. Pelos padrões desse tipo de produção, dá para dizer que a moça era, infelizmente (ou não), uma péssima atriz. Não existe, em sua performance, a menor naturalidade. Aquelas consideradas boas atrizes são as que “gostam da coisa” ou pelo menos conseguem fingir de forma convincente. Não era o caso de Eliza. Nas cenas em que instrumentos monstruosos de diferente formas lhe são introduzidos, a visão chega a ser incômoda. É visível que aquilo dói. E os closes da câmera, que fatiam a mulher a sangue frio, fazem dessa fita algo próximo a um snuff movie.

Que os descaminhos de sua opção de vida tenham jogado Eliza em seguida na cama de um famoso jogador de futebol, que ela tenha engravidado e que ele tenha decidido simplesmente sacrificá-la para “resolver o tormento”, tudo isso parece ser só uma exacerbação dos mecanismos simbólicos do pornô. Que descarta suas estrelas com maior velocidade que o cinema “normal” e a TV. E que acaba por destrinchar sua carne de de uma forma que não tem nada de metafórica.

O Brasil era o país do futuro

Há dias isso tem atormentado alguns. Levamos anos por aí, tropeçando, sendo eliminados nos pênaltis e perdendo dinheiro no overnight, à espera de dias melhores, na torcida para que uma luz se acendesse e mostrasse um caminho. O Brasil era o país do futuro.

Veio então uma onda boa, um tubo porreta. O Brasil embicou a prancha e se preparou para surfar no mar da bonança. Estabilidade econômica, petróleo a dar com pau e sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. O que ninguém contava era que os maias estivessem certo.

Disse esse povo ancestral que a casa vai cair em 2012. Que o mundo vai acabar. Então, não adiantou porra nenhuma o que fizemos nos últimos anos. E parece que a coisa vai babar mesmo, porque já é possível ouvir as vuvuzelas do apocalipse soando. Em Alagoas e Pernambuco o sertão já virou mar. Aguardamos para breve onde o mar virará sertão: minha aposta é que seja em algum ponto da Baía de Guanabara próximo a Paquetá.

Mas não é só isso. Na África do Sul, depois de quase ter a perna amputada por um luso-brasileiro, Felipe Melo melhora e promete atrapalhar o time voltando a ser titular contra a Holanda. E, o pior de tudo, a saga do Harry Potter vai acabar. Tive a certeza que tudo vai se acabar quando li pela internet a fatídica nova. Depois do final de Lost, saber que Harry, Hermione e aquele ruivo cujo nome sempre esqueço vão pendurar as varinhas é, sem dúvida, o sétimo selo.

Ô, crianças. Isso é só o fim.

O futebol é o ópio do povo

Amiga ouvinte, é um prazer fazer contato novamente. De início nós pedimos sinceras desculpas pelo período de ausência. Mas é compreensível. Nessa correria do dia a dia não é sempre que conseguimos fazer aquilo tudo que panejamos, não é mesmo? Mas ocorre que hoje e amanhã não há partidas pela Copa do Mundo, então o pessoal aqui da repartição aproveitou para trabalhar.

É isso mesmo, nós perdemos os pudores e resolvemos admitir que estávamos era vendo os jogos. Percebam, dois terços aqui da repartição são heterossexuais e brasileiros, de forma que o futebol nos encanta e enfeitiça. O outro terço é também heterossexual, mas é norueguês. Então futebol nem chama assim tanta atenção. Mas como nórdico e europeu civilizado, este terço gosta de boas histórias, exemplos de comportamento humano, essas coisas.

Isso nos leva a uma análise do futebol que não se vê nos cadernos de esporte. Notem que é um esporte fabuloso e popular em todo o planeta, exceto no Canadá e nas Ilhas Samoa. Até os EUA se renderam ao soccer. Foi logo após do gol do Donovan aos 46 do segundo tempo e pouco antes da trolha que levaram de Gana. Os ianques se ligaram na Copa do Mundo bem a tempo de tomar na tarra. Mas o que nos emociou aqui foi a campanha dos sul-americanos.

Quem vem acompanhando os times na África do Sul sabe que dos oito classificados para as quartas-de-final, quatro são da América do Sul, para a alegria do Belchior. Brasil (5 vezes), Argentina e Uruguai (2) já provaram o prazer de ser campeão do mundo. Por isso é o Paraguai que mais nos toca.

Um país pequeno de gente sofrida e condenada a uísques falsificados e carros roubados que merece essa alegria toda. O presidente já disse que acredita que o time estará na final. Mas nada apaixona mais que o símbolo da torcida guarani, uma menina do povo, uma paraguaizinha enamorada de seu selecionado. Larissa Riquelme é, de acordo com o pessoal aqui da firma, o craque dessa Copa.

Jogo sim outro também ela grita, canta e dança sem parar. Não se reprime e torce de peito aberto pelo seu Paraguai querido. A euforia dos nossos vizinhos é tanta que Larissa, num rompante de animação, prometeu se despir caso o caneco vá para Assunción. Com uma torcida tão empolgada como essa, quem somos nós para torcer contra, não é verdade?

Por que me ufano do país dos outros

Já está até meio chato repetir que Argentina x Alemanha será a final antecipada da Copa do Mundo. Mas o que se há de fazer? São as duas melhores equipes do Mundial e mereciam ir mais longe do que as quartas de final. E também são as únicas a apresentar algo de novo ao já desgastado balé da bola.

Do lado germânico, a questão era psicológica: os teutônicos nunca esconderam a mágoa por ser considerados de “cintura dura” e estavam pelos colhões deste papo de futebol aplicado, muita força-pouca técnica blah-blah. Era o chamado complexo do alemão. Mas aí eles meteram uns moreninhos ali no time e fizeram um multiculturalismo bonito pra inglês ver. Tiraram onda, com direito a olé e vamo que vamo. Freud, que fala alemão, explica.

Do lado argentino, parece que até aqui tem funcionado bem a dieta maradonística de sexo, vinho e churrasco para os jogadores na concentração. Esperamos que a estratégia motivacional do grande gestor de RH que Don Diego revelou ser continue gerando resultados positivos. Uma conquista argentina com base nestes preceitos há de revolucionar não só os paradigmas futebolísticos como doravante todas as relações trabalhistas. Será a prova incontestável de que beber na firma não é nada demais.

Mas entre um e outro, fico com a Argentina. Maradona já mandou muita coisa pra dentro do nariz, mas nunca vi El Pibe mandar algo do nariz pra dentro da boca, como o seu Joachin fez outro dia.

– E do lado do Dunga?

Aí eu não sei. Prefiro futebol.

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