Escrever resenhas de discos só não é pior do que ter que ler uma. Para piorar, há ainda a figura do leitor de críticas, um dos tipos mais rasos que existe, sempre opinativo e fanfarrão. Mas já dizia o velho Zappa: “jornalismo musical é gente que não sabe escrever entrevistando gente que não sabe falar para gente que não sabe ler”. E olha que ele nunca leu uma entrevista do Lulu Santos.
Para fazer jus a esse, digamos, gênero jornalístico, iniciamos aqui no Raios Triplos! 3.0 um concurso para reunir o que há de melhor no pior da seara resenhística. Já recebemos algumas unidades, das quais publicamos abaixo as três primeiras e únicas. Infelizmente os autores pediram para se manter no anonimato, o que denota algum juízo da parte deles. Envie você também sua resenha para nós, no endereço eletrônico raiostriplos@gmail.com. Se ela for ruim de verdade, nós garantimos sua publicação.
Os Artistas – O que esperar de uma banda que se auto-intitula “Os artistas”? Coragem, apenas coragem. Mas os Artistas são mesmo um trio abusado: O Bom (guitarra), O Mau (baixo e vocais) e O Feio (bateria, obviamente) se apresentam com lenços nos pescoços. E acreditam, de verdade, que seu esforço de transportar a obra do Só Pra Contrariar para uma ambiência clássica de power trio de rock’n’roll é uma experiência radical, coisa de artista (obviamente). Daí a injúria d’O Bom diante das primeiras palavras negativas que a banda recebeu, confidenciadas pelo produtor de seu álbum de estreia a um ou dois ou três jornalistas. Ao se deparar com o trio no estúdio onde gravariam as faixas do disco “O outro lado do Mineirinho”, o produtor teria dito: “Tô fodido”. Esta e a longa fila de impropérios que a banda ouviu desde que a versão dub de “A barata” ganhou as rádios e programas de auditório de todo o país explicam o desabafo do Feio. Cara de choro e cueca na cabeça, o baterista fez um contundente desabafo para uma câmera de celular, já visto por quase 32 milhões de pessoas na internet apenas nas últimas três semanas, apesar da péssima qualidade das imagens.
Raimundo Uzêda & os corações de cordéis – Vivos estivessem, Patativa do Assaré e Chico Buarque certamente deixariam rolar uma ou duas lágrimas de emoção diante de uma das contundentes apresentações do paraibano Raimundo Uzêda e de sua banda & Os corações de cordéis. Aquele “&”, diga-se de passagem, já foi até motivo de discussão semiológica na faculdade de comunicação, mas o povo em si acha mesmo é ridícula essa letrinha antes do Os. Opa, acabam de me dizer que o Chico Buarque tá vivão da silva. Mal aí, Chico. Mas então: o Raimundo é aquele cantor emocionado, que se rasga na interpretação e sua por tudo o que é poro nos shows, dando um efeito dramático (e muito do nojento) nas fotografias. E os & Os corações de cordéis eram justamente do tipo que fica na faculdade de Comunicação discutindo o “&”, fumando maconha, tocando sanfona e financiando esta merda. “Vá pra porra”, era o que dizia o Sílvicola, pernambucano que servia de garçom no botequim da faculdade e detestava aturar diariamente a música do & Os corações de cordéis, até quando tinha greve. “Vá pra porra”, ele dizia e completava, “que isso é música de paraíba”. “Paraíba teu cu, índio viado, que eu sou é paraibano. Sou de João Pessoa!”, respondia o Raimundo Uzêda, mas bem que se aproveitou do pernambucano ao surrupiar-lhe o bordão para o título do seu primeiro e surpreendente disco, “Vá pra porra!!!”, que traz o contagiante desabafo nordestino “Paraíba é tua mãe”. Cotação: qualquer nota.
Os Mais Novos – Eles têm entre 78 e 93 anos, mas a vitalidade é de iniciantes. Até porque são mesmo: encostados no asilo, Pedro (voz, 93), Ney (flauta doce, 78), Mota (tambor, 93) e Lima (turntables, não revela a idade) se conheceram nas aulas de terapia ocupacional. Logo descobriram afinidades musicais incontornáveis e decidiram formar uma banda – estavam desbravando um novo nicho geracional, antes mesmo dos Rolling Stones. Apesar de lhes faltarem instrumentos, como baixo, bateria e guitarras, decidiram adotar a formação clássica do rock and roll. Suas referências, afinal de contas, eram zuper antenadas. “Nada supera, atualmente, a emoção e o vigor de duas bandas: Nickelback lá fora e NX Zero aqui”, disse Ney, o caçula do grupo, apontando para o próprio coração, numa das primeiras entrevistas dos Mais Novos para a TV. Já as calças frouxas, característica indelével de seu visual, eram inteiramente acidentais. No fim de 2008, os Mais (apelido ‘íntimo’ que ganharam dos fãs) finalmente entraram em estúdio para registrar sua obra de estreia, “É Nóis, Manô”, no qual descrevem, de modo transgressor, a dura rotina no asilo. Em faixas como “Hora do remédio”, “Ninguém vem me ver” e “Quem pegou meus óculos?”, os Mais estabelecem um novo patamar para a sua música, ou seja lá que diabo é essa coisa que eles fazem. O disco é dedicado a Ney, que morreu de repente durante o período de mixagem no estúdio Nas nuvens. “Ele já estava pertinho do céu mesmo…”, declarou Mota, pesaroso, em nota oficial.
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