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O papel de um jornal


Houve um tempo, antes da internet, em que a oportunidade que um jovem jornalista tinha de ver suas asneiras publicadas, ganhar uns discos, assistir a uns shows de graça e eventualmente comer (ou ser comido) por alguém era uma só: escrever para algum jornal. Jornal de papel, diga-se. E boa parte dos hoje velhos jornalistas culturais da cidade (este aqui incluído) começou lá na Tribuna da Imprensa, um periódico que esta semana deixou de circular em papel, por razões que só a tribunesca razão (ou falta de) há de explicar. Agora, só mesmo no online. Sinal dos tempos.

Qualquer um que um dia tenha subido as escadarias do casarão na Rua do Lavradio 98 sabe: aquilo não era uma redação, era um universo paralelo. Meio aquele bar do Guerra nas Estrelas, com os tipos mais excêntricos da galáxia. Velhos paladinos da imprensa em busca de uma causa, estagiários estabanados, mitômanos em geral, artistas sem palco, escritores sem editora e oportunistas de todo tipo. Restava saber em qual categoria você ia se encaixar para fazer parte do combativo jornal do logotipo vermelho fundado por Carlos Lacerda e capitaneado por Hélio Fernandes.

Foi o primeiro jornal que assinou minha carteira de trabalho. E o único me deu vale-refeição – que eu não hesitava em torrar em cerveja naqueles bons tempos em que a Lapa era Lapa e tinha um precário Circo Voador, travestis com cabelinho louro e barba por fazer e nenhum samba de raiz. Um dia, como todo mundo que esperava ganhar a vida com jornalismo, fui trabalhar no JB. Até o dia em que o JB foi ficando cada vez mais parecido com a Tribuna – aquele era um jornal de vanguarda e não sabíamos!

Lembro bem de um dia em que um velhinho na praça estava lendo a Tribuna e me deu o caderno BIS para ler (ele só comprava o jornal para se deliciar com os editoriais inflamados do Seu Hélio). Lá eu vi a assinatura, bem grande, de um amigo de faculdade. Era na coluna de filmes na TV. Pensava eu: um dia chego lá! Não demorou nada, lá estava eu assinando também a coluna, com o ego nas alturas, imaginando a cidade inteira vendo meu nome estampado naquelas páginas. Ou se não a cidade inteira, pelo menos o velhinho da praça, que iria contar a novidade para todos os velhinhos amigos.

Volta para as bancas, Tribuna!

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