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Nem tudo está perdido

Eram bonitinhas, as duas. Mas muito mal-educadas. Eu ali na fila (na real, uma aglomeração), igual a todo mundo, desafiando a física e ocupando o mesmo lugar no espaço, esperando para pegar minha cerveja antes do show do MGMT no Tim Festival. E a mocinha veio, distribuindo cotoveladas e se enfiando no bolo de gente. Parou na minha frente. Fiquei exatamente entre ela e a amiga. Poderia ter aproveitado a situação pra soltar uma gracinha. O problema é que eu já estava puto com a zona na frente do balcão e resolvi que não precisava aturar aquelas patricinhas folgadas.

Mas fui didático.

- Aí, tá todo mundo esperando a vez. É feio chegar assim, na grosseria.

A vaca fingiu que não ouviu. Mas a patrícia da retaguarda resolveu defender a amiga.

- Dá o seu tíquete que ela pega uma cerveja pra você. É um bom acordo, não é?

- Não acho, não.

- Mas aí ninguém sai no prejuízo.

- Eu já estou no prejuízo. Ela passou a frente, não respeitou a ordem na bagunça.

- Então, já que ela tá ali, não é melhor você dar logo o tíquete para ela?

- Não, melhor seria se a sua amiga não fosse tão mal-educada.

A patrícia tentou elevar o nível da conversa.

- Eu li um artigo que diz que todo brasileiro é um corrupto em potencial.

- Pois eu acho que você leu um artigo de merda.

E mais não conversamos. As vaquinhas corruptas pegaram suas cervejas e vazaram. Eu peguei a minha logo depois e fui ver o MGMT.

. . .
Tem gente que é assim: acha que vale tudo, que os fins justificam os meios, que ninguém nunca reage, que todo mundo embarca na mesma onda se puder se dar bem. Mas tem gente que não é assim. Ao contrário, está cada vez mais de saco cheio desse tipo de comportamento degradante. Uma boa parte dos cariocas pensa assim, Eusébio.

E como tudo o que acontece aqui irradia para o resto do País (sim, isso ainda acontece), de certo modo o resultado das eleições no Rio são animadores. Gabeira não é, nunca foi nem tem condições de ser salvador de pátria ou cidade alguma. Mas os quase 1,65 milhão de votos que teve indicam que não se pode enganar todo mundo o tempo inteiro. Que metade da cidade está bem alerta.

. . .
E aí por acaso eu li esse parágrafo hoje.

“Talvez não possamos derrubar o poder estabelecido (seja o poder dos partidos políticos ou dos grandes doadores de dinheiro) da noite para o dia: ninguém envolvido nessas campanhas inspiradas na cultura popular está falando em revolução, digital ou de outra ordem. Estão falando de uma mudança no papel do público no processo político, aproximando o mundo do discurso político das experiências de vida dos cidadãos; estão falando em mudar a maneira como as pessoas pensam sobre comunidade e poder, para que sejam capazes de mobilizar a inteligência coletiva e transformar o governo; e estão falando em substituir o conceito do cidadão individualmente informado pelo conceito cooperativo do cidadão monitor.”

Na página 272 deste livro, que pode ser encontrado aqui.

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