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Uma cidade melhor para Maya

Por ossos do ofício, atualmente me entrego à leitura de um livro que ainda não foi lançado. Trata de assuntos relacionados à ditadura no Brasil e os primeiros dias de democracia depois. Mas o que realmente me impressionou não chega a ser nada de novo. É a persistência e noção de grandeza de algumas pessoas que se envolveram nessa história – de ambos os lados. Para alguns, tudo aquilo era passageiro - até mesmo o trocador e o motorista. Um drama que haveria de passar. Podia não passar enquanto eles estivessem por perto, mas passaria. Como destacou Nelson Ned, tudo passa, tudo passará. Essa noção maior, essa visão do todo, faz muita falta.

Não acho que o Fernando Gabeira vá consertar o Rio de Janeiro. Nem espero disso dele. O Rio foi escangalhado ao longo de muitos anos e outros tantos serão necessários para repará-lo. Não será o Gabeira que nos entregará uma cidade nova em folha como adoraríamos.

Mas acho que o Gabeira pode começar o serviço. Torço para que comece. Tomara que ele comece e que depois dele outros continuem. O que nós precisamos é perder a mania de enxergar pouco. A gente pode fazer nossa parte, mas pra tudo ficar joinha, serão necessárias algumas gerações fazendo o melhor que elas puderem até que o Rio fique um brinco.

Por isso que não gostamos de trabalhar, só de dar pitaco

Não acho que o Eduardo Paes se preocupe com isso. Sua trajetória fulminante e as tantas trocas de partido parecem mostrar, para mim, que ele, mais que um projeto pro Rio, tem um projeto para si. E que passa pela prefeitura para ir a cargos mais altos. Não acho que o Gabeira queira postos mais altos. Acho que ele quer uma cidade melhor. Senão para ele, para a Maya, sua indefesa filha que surfa onda gigantes. O Gabeira apareceu na TV em plena campanha dizendo que a câmara municipal está cheia de ladrões e assassinos. Isso não é coisa de quem planeja vôos mais altos.

Não fique triste, Maya. Tudo vai dar certo!

Eu concordo com o Gabeira. E olha que sou suburbano! Mas não quero que minha cidade tenha bandidos a patrulhar outros bandidos. Pode ser bonito para quem está longe e sente mais tranqüilo. Mas não o é para quem está perto. Para quem está ali, o sonho mesmo é que tudo fosse normal. Nada de excepcional, nenhuma maravilha, só normal.

Mas o normal para nós, cariocas, está cada vez mais complicado. Nós ainda somos um povo que curte a vida e celebra a beleza, a despeito de nossa decadência avançada. O problema é que nós, cariocas, tropeçamos na nossa própria hipocrisia e estamos há anos catando cavaco rumo à ruína. Somos todos hipócritas, da Zona Norte a Sul, passando pela Oeste e, por que não?, as Cagarras, também parte da cidade de São Sebastião. Queremos um cara que nos conserte, mas preferimos que no serviço esteja alguém simpático, jovem, com aparência saudável e discurso arrojado. No fundo, todos já vimos esse filme e sabemos que ele quer só uma parada mais maneira mais para frente. Mas a gente funciona desse jeito. Que nem solteira perdida.

O problema é justamente esse: queremos que alguém nos conserte. Não queremos consertar porra nenhuma. Queremos tudo como está, que é pra não dar trabalho. De resto, é torcer para dar sol e correr pra praia. Queremos que a culpa pela escolha errada seja deles, daquele povo da Zona (*preencher com uma região da cidade onde você não mora).

O problema do Rio de Janeiro somos nós.

Uma eleição em que de um turno para o outro todo mundo vira amigo é piada. Crivella, Paulo Ramos, Molon e Jandira marchando com Paes é brincadeira. Política é a arte do arranjo, mas tudo tem limites. Só o PMDB não tem limites. Eles querem o de sempre. E quem resolve colar com eles no segundo turno quer o mesmo. O de sempre.

Nós temos preguiça de pensar muito na frente. E nos acostumamos tanto às cagadas que uma a mais ou a menos não nos faz diferença. Só quando o carro é arrombado, a empregada não vai porque o morro tá em guerra, um amigo é achacado pela polícia ou, a pior das desgraças, alguém querido morre. Aí nós queremos mudanças. Mas no fundo, não mudamos muito.

E não há de ser com Eduardo Paes que mudaremos.

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