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É devagar, é devagar, devagarinho

Festival de cinema é aquela coisa: um monte de filme passando e você sem tempo&dinheiro pro negócio.  Mas, ha!, eu tenho um crachá malandro que me permite escorregar para dentro das sessões, desde que sobre uma poltroninha na sala. O problema é que o crachá é mais malandro que eu e, pra piorar, estava chovendo ontem à noite. Eram 21h10 e às 21h15 começava um filme com título de música do Ronaldo Bôscoli (ou do Hyldon): O céu, a terra e a chuva. De novo: o céu, a terra e a chuva. Isso não é um título, é quase um alerta, não é? O problema é que eu gosto de viver perigosamente e me enfurnei na sessão. O filme era chileno. Havia um casal gordinho ao lado, que começou a se agarrar com cinco minutos de projeção. Com cinco minutos de projeção, a câmera havia focalizado uma menina, um cachorro e uma árvore. Sentiu o drama? Com meia hora de filme começou a debandada. Até então, os espectadores tínhamos visto a protagonista, uma moça triste de cabelos negros, andar por uma estradinha, dar injeção na mãe (ou avó) inválida, errar o troco numa venda, andar pela estradinha de bicicleta, ralar o joelho, pegar uma barca (ela morava numa ilha), andar pela estradinha, olhar o mato, murmurar algumas frases, olhar pela janela, andar pela estradinha. Na quinta vez que ela passou pela estradinha um sujeito levantou e saiu correndo. De cinco em cinco minutos - ou seja, cada vez que ela aparecia subindo ou descendo a estradinha - mais alguém pegava o caminho de casa. Quando a dona da venda a acusa de roubo - ou de errar o troco fazer uma tremenda bobagem ao dar o troco - ela se emprega como doméstica na casa de um sujeito barbudo e solitário chamado… Toro. Com um nome e um roteiro desses, você logo imagina: beleza, lá vem sacanagem! Nada disso. Ela só passa a pegar outra estradinha pro trabalho. Tem uma menina no filme chamada Marta. Cara de meninão, parrudinha, deprimida. O tédio em pessoa. Numa cena, ela fica um minuto de relógio encarando uma árvore; então desaba na relva. Se ainda fosse a Scarlett Johansson… Desespero na audiência. “Ah, fala sério!”, protesta um espectador. E então começaram os risos. A cada vez que Ana (após uma hora de projeção você descobre que é este o nome da protagonista) subia a estradinha, risadinhas e burburinho percorriam a sala. Os pedidos de silêncio, veementes e cheios de si no início da sessão, perderam completamente a moral. Já tinha gente se despedindo de quem partia: uma moça ganhou um “Bye, bye” ao passar na frente da tela. Nessa hora, Toro estava com a cara toda arrebentada, na cama, tentando desesperadamente agarrar a Ana. Ela correu pra chuva (chove muito no filme) e lá ficou. Na cena seguinte, os dois jantavam tranqüilamente enquanto ela esperava a chuva passar.

É então que, pela única vez na vida, ou pelo menos no filme, Ana decide sair da rotina. Dorme na casa do Toro - mas na cama do cachorro. Ao voltar para casa, obviamente, encontra a mãe (avó?)morta. Ah! E a Marta entra no mato e ninguém nunca mais a vê. “Ela também não agüentou e foi embora”, supôs um espectador mais atento. Ana chora, anda pela estradinha, some do quadro e a câmera - lenta, muito lenta - continua ali, filmando a estrada, filmando, filmando…

Quando ‘O Céu, A Terra e A Chuva’ terminou, os aplausos foram sinceros. E muita gente aplaudiu justamente porque  tinha terminado. Mas tá pensando o quê? O filme é premiado, valeu? Ganhou até troféu no festival de Rotterdam. E Rotterdam fica onde? Na Holanda!, onde é normal passar o tempo olhando pro nada.

Clicando no vídeo aí debaixo você vai entender porque o tempo é relativo.

3 Comments

  1. Monix wrote:

    Hahahahaha!!! Pelo menos o ingresso foi digrátis, Deus é mais. :P
    Bjs

    Quinta-feira, Outubro 2, 2008 at 4:34 pm | Permalink
  2. Rafael wrote:

    Aí estréia uma coisa dessas no circuito (por exemplo, Luz Silenciosa) e muitos sites, até os mais pops, falam super bem.

    Acho que filmes assim, escondidos num festival, nego se sente confortável ao falar mal. Quando vê a luz do dia, o discurso muda.

    Não estou falando que é o seu caso, nobre escriba, mas isso acontece muito por aí!

    Abraços

    Sexta-feira, Outubro 3, 2008 at 1:17 pm | Permalink
  3. Calaza wrote:

    Rapaz, acontece por aí coisa que até Deus duvida!

    Quinta-feira, Outubro 9, 2008 at 1:04 pm | Permalink

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