Fui ver a fila da Madonna. Felizmente, só precisei ficar lá apenas uma hora, ao contrário do povo que estava ali desde terça-feira para garantir um lugar ao sol na “pista vip”, esta invenção que inflaciona os preços dos ingressos e acaba com uma velha instituição em shows: a turma do gargarejo.
Até pouco tempo, quem quisesse ver as pelancas da Madonna só precisaria chegar cedo no dia do show, esperar os portões abrirem, arrasar na corrida e se grudar por seis horas na grade que separa o palco do público. Agora, é preciso chegar cedo, bem cedo, dias mais cedo, meses mais cedo, para conquistar o direito de pagar R$ 600 e ficar perto do ídolo. E depois repetir a dose no dia do show.
Mas como eu não vou ao show mesmo, quero que essa gente se foda.
Eu fui até lá para escrever alguma coisa sobre a tal da fila. De cara, vi que a primeirona estava de mau humor. Eu também ficaria, se estivesse há quatro dias sem banho ou travesseiro. A situação da moça não era das melhores, mas ela perseverou. Um exemplo para toda a sociedade brasileira que tem R$ 600 no bolso e tempo de sobra para gastar numa fila ao relento.
Hoje, eu soube, a primeirona continuava firme lá, e conquistou sua tão sonhada “pista vip”, este contrasenso pós-moderno. Mas continuava de cara amarrada. Um repórter de uma TV tentou entrevistá-la, mas ela não quis saber de papo. Ele, então, apelou. “Pô, tu tá mais estrelinha que a Madonna!” Houve a falta, senhoras e senhores, houve a falta.
*Bicha, pois, é fila em Portugal.

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