Bem, amigos! Começa agora mais um esfuziante plantão da madrugada (uma vez por mês eu troco o dia pela noite. É uma delícia). A brincadeira consiste em permanecer numa sala, diante de rádios que um dia já captaram a freqüência da poliça, ligando pras delegacias (”alô, é da 4ª DP? Tudo tranqüilo aí?”, “tudo certo, chefia”, “Valeu, bom serviço”) e/ou esperando uma desgraça qualquer acontecer na barulhenta calada das trepidantes noites cariocas. A deste sábado foi assim, até agora (são 4h17):
23h58 - Chegada alvissareira à redação. Ninguém na sala de escuta. Mal sinal.
0h00 - Conversa pelo rádio com o ‘motora da madruga’. “A chapa esquentou no Morro Azul, cumpadi”, ele me avisa.
0h01 - Um minuto de plantão e já sei. O crime do Morro Azul (bom título para um livro policial juvenil, hein?) vai me custar um passeio pela comunidade, que, revoltada com a morte de um rapaz no pé do morro, achou por bem incendiar carros, espalhar lixo, interditar ruas e depredar lojas pelo Flamengo. Pra marcar uma posição, sabe? Aparentemente, a culpa é da polícia. Pela morte do rapaz, sim. Mas e quem paga pelos carros incendiados, vitrines quebradas etc.? Ninguém quer saber de conversa. O negócio é ação, reação, destruição.
0h11 - Leio e “corto pelo pé” a notícia sobre morte e descontrole social no Flamengo. É, tá ruim pra todo mundo. Depois, vou até o morro ver qual é. Contra a vontade, obviamente.
0h50 - Os homens se preparam para rebocar o carro da polícia, que se chama viatura e está bloqueado no morro. A comunidade está indócil. “Assassinos e covardem, mataram um trabalhador”, repete uma mulher. Um motorista de ônibus, copo de cerveja na mão, chama um PM pro pau. O PM, fuzil em punho, olha pro cara, furioso. O carro da polícia desce o morro, rebocado. Vaias para o carro. Alguém atira uma garrafa de cerveja. A viatura não tem uma janela intacta.
1h10 - A imprensa (falada, escrita e televisada) invade a 9ª DP, no Catete. Lá dentro, um garoto de 21 anos está apavorado. Ele viu a morte do rapaz e prestará depoimento como testemunha. Acho que ele preferia não ter visto nada.
1h17 - A aglomeração da imprensa na porta da DP atrai a curiosidade de quem passa em frente. Um rapaz com um violão na mão e um capacete de obras na outra passa entre jornalistas e policiais, tentando adivinhar, com o olhar, o que está acontecendo. Cinegrafistas e fotógrafos se acotovelam atrás de um registro da testemunha em pânico. Passa um carro e o motorista grita: “urubus!”. Um repórter grita de volta: “Porra, eu sou tricolor!”.
1h42 - Rodinha da imprensa em frente à delegacia. Alguém lembra que o morto era manco, cego de um olho e já havia sido vítima de bala perdida. “Ô, vida severina”, lamenta uma repórter. Outro conta de um lendário jornalista, em ação no morro horas antes, interrogando a viúva. “Desculpe, mas seu marido era manco da perna esquerda ou direita?”
2h05 - O rapaz do violão e capacete passa de novo. Observa mais uma vez a confusão. Pareceu ter ido embora sem matar a curiosidade.
2h38 - Outra testemunha, uma senhora, deixa a sala da delegada de plantão se queixando: “Se eu soubesse, tinha ficado na minha terra”. Ela e a mãe do rapaz apavorado (que ainda não testemunhou) começam a conversar. “Nessas horas é melhor ser surdo e não ver nada.”
2h48 - As senhoras desfiam um impressionante rosário de lamentos e denúncias contra os policiais. Histórias sem fim de abuso, desrespeito e ilegalidade. “A quem a gente pede socorro?”, uma delas pergunta para os repórteres. Vontade de me enfiar num buraco.
2h53 - Reparo numa placa na entrada da delegacia. “9ª DP - Delegacia Legal. Inaugurada em abril de 2002. Governador: Anthony Garotinho. Chefe da Polícia Civil: Álvaro Lins.” Isso explica muita coisa, não? Um repórter comenta: “Falta outra placa em cima dessa. Com a palavra ’Procurados’.”
2h58 - As duas senhoras continuam sua conversa. Uma diz: “Os policiais acham que são deuses, tiram a vida de qualquer um. Não quero que nenhum mortal tire a minha vida. Só Deus. Quero viver que nem a Dercy Gonçalves.” “Ih, menina, ela morreu hoje…”
3h05 - A delegada avisa que não vai falar com a imprensa. A imprensa decide ir tomar um café na padaria. O rapaz apavorado ainda não testemunhou.
3h15 - O fotógrafo honra a raça na padaria. “Eu quero um sanduíche de presunto e queijo.” “Ah, você quer um misto?” “Não, eu quero sanduíche de presunto e queijo. Odeio misto.” E a atendente: “Tá bom. Ô Válter, faz um misto!”
3h36 - No Largo da Cruz Vermelha, duas motos quase batem. O carona de uma delas grita alguma coisa para o piloto da outra moto e enfia a mão por dentro da camiseta, como se fosse sacar uma arma. O que gerou o comentário no carro: “Esses caras ficam brincando assim, passa a polícia e metralha todo mundo, agora que eles estão nessa de atirar antes de perguntar.”
3h40 - De volta à redação.
4h43 - Um passeio pela redação deserta pra espantar o sono. Se eu tivesse uma lanterna, seria o próprio zelador do museu.
4h49 - Uma ronda telefônica pelas delegacias. “Alô, é da 19ª? Alguma coisa aí pra gente?” “Não, tá tudo calmo, graças a Deus.” “Valeu. Alô, é da da 23ª? Tá tudo calmo por aí?” “Até agora sim, graças a Deus.” “Um abraço.” A cidade é uma calmaria desde que a polícia criptografou sua freqüência de rádio.
5h00 - Toca o telefone. “Ih, fodeu.” É o cara do plantão de uma TV. “É isso mesmo? Tá tudo calmo agora?” “Parece.” “Que bom.” “Nem me fala.”
5h14 - Vou ao banheiro.
5h16 - Bem melhor agora.
5h26 - Navegando. Parti do Arrastão (fundamental) e aportei de cara no download (CC) de ‘Mídia, Máfia & Rock’n'Roll’, do Cláudio Júlio Tognolli (editora do Bispo). Direto ao capítulo 8, sobre jornalismo cultural e ‘De como os cadernos do gênero estão cada vez mais escravos das assessorias de imprensa’.
5h35 - Envio, a quem de direito, pequeno relatório sobre meu passeio ao morro e à DP e volto ao texto do Tognolli.
6h02 - Ainda navegando. E contando os minutos. Faltam 58.
6h07 - “Surfar a crista da onda das ofertas de catálogos culturais, dos guias, é estar conectado visceralmente à torrente, ao fluxo. Não queremos mais tão-somente a arte que nos gera efeitos; queremos sentir o efeito de estar no fluxo, eis aí a mais nova leitura da frase “O meio é a mensagem”, de Mc Luhan.” Às seis da manhã, isso fez todo o sentido. Mas pode ser o sono. (p.144)
6h08 - Tem missa na TV.
6h18 - Soooooono, muito sono. E mais um cafezinho.
6h29 - Caralho-merda-puta que pariu, a porra do tempo não passa! (minha sincera homenagem à Dercy)
6h33 - Telefono pra um colega de infortúnio. “É isso, então?” “É isso mesmo.” Pelo menos pra gente fez sentido.
6h48 - Faltam 12 minutos pra alforria e me vem um poliça contar que está pra começar uma mega ultra uber operação de apreensão de balões “de grande porte”… em São Gonçalo? Um abraço!
6h53 -Liberdade! Com sete minutinhos de troco. Agora é só subir o post e cantar pra subir. Bom dia a todos e até uma próxima. Ou não, de preferência.
6 Comments
Algumas observações:
1- Os jornais seriam bem menos chatos se entendessem de uma vez que NOTÍCIA (notícia chata, rame-rame, declaratória)é para estar na internet ou no alto da página, como resumão.
Para mim, texto bom sobre o que rolou no Morro Azul foi esse aí.
2- O cara que gritou URUBUS! é o mesmo filho da puta que, quando a PM senta a porrada nele (geralmente merecidamente) no morro, ele, sem ter mais para onde correr, liga pro jornal pedindo socorro. AÍ o repórter vai no morro, se arrisca, toma tiro, para depois ser chamado de urubu.
3- Os rádios não estão mudos somente por causa da criptografia. Estão também mudos porque não funcionam, muitos deles!
No mais, sensacional essa do plantão da madrugada. Me lembrou Valdomiro Pena.
abs
Resp.: O café com leite salvou a noite.!: )
MUITO MANEIRO O TEXTO! Infelizmente os textos sobre atos de violência são chatos de ler e também (dado preocupante) não estimulam ninguém a pensar o cenário todo…você conseguiu reunir, em um texto gostos de ler, a visão da polícia, da testemunha, do cara que atira a garrafa, do repórter e do cara que faz o misto! demais mesmo. parabéns!
abs
alessandra
Resp.: Valeus aí! Recomendo a padaria!
Ué, cervejinha? jantarzinho? Minha agenda é sua, amigo, é só dizer quando.
Tá rolando uma combinação para comemorar 15 anos de nossa formatura - éeeeee, fio, o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus nem existe mais. Vai ser em agosto, na Lapa. Mas acho que a gente devia se ver antes disso.
Beijocas
Não vou dizer que você deveria trabalhar mais de madrugada, porque seria sacanagem e você é meu amigo… E… Já tive minhas noites de sofrimento, inclusive numa virada de ano - sei o que isso significa. Cara… eu só consigo pensar naquela frase de antigamente: “Pau no cu e garalhada!” Um abraço.
Sabe, eu acho que gosto de sofrer. Como se já não bastasse ter nascido mulher, ainda escolhi ser jornalista. E pior…trabalhar em redação.
O bom é que sou apaixonada por tudo isso.
Simplesmente sensacional esse post.
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