O dia começara calmo, com uma sessão de O Mistério do Samba, o tal filme da Marisa Monte sobre a Portela. E lá estava ele, ouvindo sambas imortais de Casquinha, Argemiro, Seu Jair do Cavaquinho e Monarco, nas vozes dos próprios. Enquanto isso, Marisa catava alguma composição perdida do Mijinha numas fitas cassetes amareladas e o desfile de fachadas suburbanas seguia na tela. O coração de pedra não se abalava, por mais que aquilo trouxesse memórias dos tempos de menino, das bolinhas de gude na rua sem calçamento da Vila da Penha. Triste, de certa forma.
A noite veio e um outro tipo de tradição esbarrou em seu caminho. No palco do Circo Voador, João Gordo e o baterista Boka, ambos do velho grupo punk paulistano Ratos de Porão, lembravam seus crássicos com as cordas emprestadas dos discípulos capixabas do Mukeka di Rato. Crucificaaaaados pelo sisteeeeeeeemaaaaa! Caaaaaaaaos! Bebeeeer até morrrreeeer! Os meninos e meninas do público trasnbordavam de amor e subiam o palco para abraçar João que, numa candura sem precedentes, até dava o microfone para eles dizerem alguma besteira antes de pular no vácuo existencial do mosh pit. Uma beleza de cena.

Mas o melhor veio depois, lá pelas duas e tanto da manhã. Outra velha banda punk de SP, o Cólera, chegava para tocar com sua formação clássica. Redson, seu irmão Pierre e o baixista Val – que estava pelo menos com o dobro do tamanho desde que ele testemunhara pela última vez um show do grupo, lá pelos idos de 1988. A idade não trouxe cansaço ao trio grisalho, só perícia. E assim, as lágrimas trancadas ao longo do dia jorraram ao vê-los tocar “Medo” e “Pela Paz em Todo Mundo” mais uma vez. Até o João Gordo, que andara brigado com os caras, se juntou a eles numa música. Como dizia com toda sabedoria o Só Pra Contrariar, não é assim que acaba uma grande paixão.
Ao cotejar as experiências do dia diante de um cachorro quente de carrocinha, minutos antes de rumar para casa, ele ainda pensou: que espírito de porco seria capaz de trocar um samba de Casquinha por um vômito do Cólera? Veio até o trocadilho: Casquinha, Cólera, é tudo ferida. Mas aí ele cocou o bolso, onde estava o recém-adquirido CD do Enterro (banda de death metal do Donida, guitarrista do Matanza) e veio a iluminação:
- Que se foda!
E foi para casa, feliz da vida.
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