Meus irmãos e eu passamos boa parte da infância ouvindo nossa mãe falar maravilhas de A Noviça Rebelde. Era, sem sombra de dúvida, o filme de sua vida. Que ela vira uma única vez no cinema, na segunda metade dos anos 60. Vejam bem, crianças, isso aconteceu numa época pré-VCRs (que coisa ridícula); logo, dá pra imaginar a felicidade de nossa mãe quando viu o anúncio: A Noviça ia passar na televisão no sábado seguinte. Passamos a semana diante da expectativa: em breve vivenciaríamos as emoções que, quase 20 anos depois, ainda estavam vivas (em technicolor) na memória de Dona Alice.
Chegou o sábado. Todo mundo diante da Telefunken de respeito que nosso pai havia comprado alguns anos antes. Clima de Copa do Mundo.
O filme começou - e depois de um tempo parecia que não ia acabar nunca. Horas a fio de cantoria, rodopios e fugas nos Alpes, Edelweiss pra lá, So Long, Farewell pra cá. Mas o que na gente não esquece é da reação da mãe logo após a cena do casamento.
Ainda devia faltar cerca de uma hora de filme quando o mundo dela caiu. Atônita, diante da imensa Telefunken, ela repetia:
- Mas o que está acontecendo? Eu não estou me lembrando dessa parte! Nunca vi nada disso!
Como boa moça romântica, ela havia deixado o cinema, 20 anos antes, após a cena do casamento. Final feliz, the end, a família Trapo gorjeia aquelas musiquinhas pelos Alpes eternamente. Esse era o final que ela imaginou para o filme por duas décadas. O homem foi à Lua, o sonho acabou, uma ditadura militar inteira se passou até a mama descobrir que havia saído na metade de seu filme favorito. A vantagem dessa Noviça Rebelde particular é ser muito mais enxuta.
Eu também levei um tempão para desvendar outro mistério do filme; que raios de felicidade prozaquiana era aquela da Julie Andrews? Ninguém passa a vida daquele jeito, nem mesmo num musical! Vê só o Herson Capri. Dizem que, cantando, ele é triste. Mas ontem eu descobri a razão da alegria alpina: Edelweiss. Não a plantinha montanhesa que é o grande barato da Áustria, mas a cerveja austríaca aí ao lado, fabricada num lugar com 530 anos de know-how em manguaça. Finalmente compreendi aqueles rodopios todos morro acima e morro abaixo: dona Andrews vivia de pileque.
2 Comments
E quarenta anos após o filme, eu virei motivo de chacota cibernética!!!
Um beijo da mamãe!
Mamãe do Calaza, vim aqui especialmente para dizer que me solidarizo inteiramente com a senhora. A Noviça Rebelde é O filme. Ah, esses meninos céticos… e cínicos… tsc tsc tsc… ah… a juventude….
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