Em 1982, o Venom inventou o Black Metal. Na capa do disco de mesmo nome escorria o veneno: “As gravações domésticas em fitas-cassete estão acabando com a música… e o Venom também!”
Naquela época, a “pirataria” já agia de com força e nem todo mundo levava a história com o bom humor do Venom. Malévolos VCRs (pra quem chegou há pouco, gravadores de vídeo-cassete) iriam dar cabo de Hollywood em dois tempos. O alarmismo conservador e a cultura de processos judiciais em defesa da propriedade intelectual estavam começando a engrossar para o lado dos “piratas”.
Em 1981, o cartunista Paul Conrad publicou a seguinte charge:

Não é de hoje, portanto, nem de ontem ou anteontem, que a pirataria assombra os domínios do copyright. Em seu livro ‘Cultura Livre‘, Lawrence Lessig alerta contra a ampliação do sistema de direito autoral que continua a estender seus tentáculos sobre qualquer coisa que se mova e possa receber um carimbo de “propriedade intelectual”.
Isso, ele diz, acaba engessando muitas das formas de produzir cultura que as novas tecnologias digitais permitem. Dê adeus ao humor livre, ao pastiche, à paródia, à pesquisa livre, às referências associativas, colagens, remixes, justaposições, trucagens, documentários, mashups - tudo o que o “corte e cole” + o “faça você mesmo” das novas
ferramentas têm (por enquanto) permitido.
Este movimento começou ainda no século 19 e o embate entre detentores de direitos x piratas acompanhou as próprias trajetórias do cinema, rádio, TV a cabo, discos… até chegar à Internet e aos processos milionários contra os garotos que baixam e compartilham músicas. (na California, é menos pior roubar um CD físico do que downloadear um arquivo em mp3. A multa para o roubo é de US$ 1,5 mil; a punição pelo download pode ultrapassar o US$ 1,5 milhão)
“Som no espaço logo vira música”
BNegão não pensa assim. Aliás, depois que as faixas de ‘Enxugando Gelo’, disco de estréia de sua banda Seletores de Frëqüência, foram disponibilizadas para download, o grupo começou a andar para valer pela Europa. O rapper carioca, que acaba de lançar seu ‘Baile Bass’ com Alexandre Basa e Tejo Damasceno, do Instituto (juntos, eles formam o Turbo Trio), só ganhou com a experiência. “Foi tudo pra Internet por ideologia mesmo. Queria mostrar que baixar músicas não é o fim do mundo”, diz ele.
Como estratégia de divulgação, ele não tem mesmo do que reclamar. O Turbo Trio, que não disponibilizou o disco mas montou página no MySpace, é igualmente bem recebido na Europa e no Japão - se por um lado há uma crise institucional imensa na indústria musical, por outro, novos mercados são descobertos e inventados a cada dia. “Som no espaço logo vira música”, cantam eles em T3 Make Move. “Quem tiver idéia grava / E quem for esperto lança”. Há que se caminhar.
BNegão e o mombojó, Wado, Lucas Santanna, Violins, Max Sette e Gilberto Gil, só para lembrar alguns brasileiros que me vêm de cara à cabeça, optaram pelo desbravamento e o desprendimento. O Radiohead, então, nem se fala. Mas também é natural que boa parte dos artistas, que gastaram seu tempo e dinheiro para fazer sua arte (ou produto), exijam remuneração e combate à venda ilegal de seu trabalho. Que isso seja feito de maneira inteligente - sempre há formas, apesar de a estupidez costumar falar mais alto - é, como gostaria o Cândido iluminista, o melhor dos mundos.
De qualquer modo, o que se vê hoje é que o pirata é o verdadeiro termômetro do alcance da comunicação. Exemplo. Domingo de madrugada, no Altas Horas (e eu no plantão), o José Padilha não escondeu uma ponta de orgulho ao informar que cerca de 11,5 milhões de pessoas assistiram à versão pirata de Tropa de Elite. “Sem contar os menores de 15 anos”, acrescentou. Os humoristas brasilienses da Cia. Os Melhores do Mundo também estavam no programa. A certa altura, o Fala-Garoto resolveu mostrar o DVD dos caras. E perguntou, crente de que teria solidariedade: “Este aqui não tem pirata não, tem?” Joseph Klimber perdeu o humor na mesma hora: “É claro que tem! Não é o Tropa de Elite, mas estão pirateando a gente também!” É a glória, é a glória.
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