Leia na minha camisa
Tava lá, saindo de casa para trabalhar no sábado de manhã. Pouco antes de chegar ao ponto de ônibus no Aterro, avistei uma multidão caminhando. Muito cedo para ser o pessoal da Cláudia Leittttttte, pensei. Não, bastava ler nas camisetas: o povo vinha era para o Dia da Decisão do Show da Fé. Sim, evento gospel na praia. Todo mundo lá para ver a pregação do amigão do Eusébio, o missionário R.R. Soares. Olhei para minha própria camiseta, um tanto diabólica, dos Queens of The Stone Age, e me senti um estranho entre aquelas famílias em busca de luz divina. Será que conseguiria tomar minha condução com a pista bloqueada por aqueles ônibus que cuspiam quilos de crentes logo pela manhã?
Na janela do veículo que atravancava o ponto, a inscrição fatal do destino: Enceada de Botafogo. Ao meu lado, a solidão foi amenizada por um malandro com a camisa de “100% prostituto (com carteira assinada e tudo)”. Mas, sei lá se ele também ficou bolado – porque logo tratou de achar o seu caminho, longe dali. Sem ter sequer o apoio do funk, o jeito foi ficar ali, quietinho, até a providencial chegada do 2113. Vendo a estrutura montada na praia, com todos os banheiros químicos que faltaram no carnaval, o motorista comentou: “o cara vai sair daí num caminhão de dinheiro!” E eu só pensava na folia crente, sem álcool e sem luxúria, tumultuando o sábado em Botafogo. E o policial descendo a borrachada: “Em nome de Jesus, comportem-se!”

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